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    Dinossauro brasileiro ajuda a entender evolução de gigantes herbívoros

    REPRESENTAÇÃO ARTÍSTICA DA PAISAGEM NA REGIÃO DE AGUDO (SUL DO BRASIL), HÁ CERCA DE 230 MILHÕES DE ANOS (PERÍODO TRIÁSSICO). NO CENTRO DA IMAGEM, UMA DUPLA DE BAGUALOSAURUS AGUDOENSIS CONFRONTA O CINODONTE TRUCIDOCYNODON RIOGRANDENSIS (CANTO INFERIOR ESQUERDO). NO CANTO INFERIOR DIREITO, UM HYPERODAPEDON, RÉPTIL HERBÍVORO DO GRUPO DOS RINCOSSAUROS. AO FUNDO, UM GRUPO DE CINODONTES, EXAERETODON RIOGRANDENSIS, OBSERVA A CENA. (ARTE: JORGE BLANCO)


    Há 230 milhões de anos, um dinossauro herbívoro e tamanho bem acima da média corria pelos campos do que hoje é o município de Agudo, no Rio Grande do Sul. Agora, tudo o que resta da sua existência é o terço do seu esqueleto que foi estudado pelo paleontólogo Flávio Pretto, do Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica da Quarta Colônia, associado à Universidade Federal de Santa Maria, também do RS.

    Pretto descreveu a descoberta em estudo publicado no final de maio, com co-autoria dos paleontólogos Max Cardoso Langer e Cesar Leandro Schultz, no periódico científico Zoological Journal of the Linnean Society, atualmente editado pela Universidade de Oxford, na Inglaterra.

    Foi durante o doutorado que o paleontólogo notou que não estava lidando com um fóssil qualquer: tratava-se de uma espécie totalmente nova, que ainda não havia sido descoberta, e era também bastante “inovadora” para a época em que vivia.

    O esqueleto passou por uma série de análises, começando com a coleta do material, que foi feita em 2007. Em 2012, o pesquisador se deparou com ele e decidiu estudá-lo, iniciando as comparações anatômicas do fóssil com outros animais que viveram durante o mesmo período.

    “Isso envolveu visitar coleções em outros países, colocar os espécimes lado a lado e fazer uma busca minuciosa por características anatômicas”, explica. Após a etapa, a hipótese inicial dos paleontólogos caiu por terra, pois o fóssil não pertencia a um indivíduo adulto de alguma espécie conhecida, mas sim de uma nova.


    REPRESENTAÇÃO ESQUEMÁTICA DO ESQUELETO DE BAGUALOSAURUS AGUDOENSIS; OSSOS PRESERVADOS REPRESENTADOS EM COR MAIS CLARA. (ARTE: FLÁVIO PRETTO)

    Com a ajuda de algoritmos, os pesquisadores conseguiram traçar a árvore de relações filogenéticas e evolutivas do novo dinossauro, que pertence ao grupo dos sauropodomorfos, os maiores dinossauros conhecidos, que podiam chegar a medir até 40 metros de comprimento e eram herbívoros.

    Definido isso, os paleontólogos descreveram os ossos descobertos, que incluem boa parte do crânio e da mandíbula, algumas costelas e partes da coluna vertebral e a maioria dos ossos dos membros posteriores.

    O dino ganhou o nome de Bagualosaurus agudoensis, uma referência à expressão gaúcha “bagual”, que é usada para se referir a animais grandes e selvagens, e à cidade onde o fóssil foi encontrado. “Foi uma brincadeira que surgiu antes mesmo de começar a estudar o animal”, conta Pretto. “Quando a gente viu o fêmur do dinossauro [que mede 25 centímetros], surgiu a interjeição ‘Nossa, mas olha só, era um bicho bem bagual mesmo. Olha que grande que ele é'."

    O nome pegou e as pessoas começaram a se interessar mais pelo fóssil: “É interessante quando a ciência ganha um pouco de informalidade, porque acaba atingindo melhor as pessoas. O povo de Agudo gostou bastante do nome e isso levou as pessoas a quererem se informar e conhecer um pouco mais do nosso trabalho”.

    O dino gaúcho

    A primeira característica que chamou a atenção dos paleontólogos foi o tamanho do fóssil, que era muito maior do que o das outras espécies que conviviam com ele no início do Triássico Superior. Entre elas, estão o Staurikosaurus pricei, o Saturnalia tupiniquim, o Buriolestes schultzi — uma espécie recém-descoberta que media cerca de 1,2 metro de comprimento — e o Pampadromaeus barberenai, que foi encontrado na mesma região que o Bagualosaurus agudoensis e que fez os paleontólogos tomarem um cuidado redobrado para descobrir se eram ou não indivíduos da mesma espécie.

    De acordo com as estimativas dos pesquisadores, o Bagualosaurus tinha 2,5 metros de comprimento, podendo chegar a até três. “Comparado aos outros dinossauros da época, o fêmur dele era bem maior. Dava perceber isso só de colocar os ossos lado a lado”, afirma Pretto. O fêmur, neste caso, foi importante para estimar o tamanho do dinossauro porque, entre outros cálculos e comparações, o comprimento de sauropodomorfos tende a ser dez vez maior do que comprimento femoral.

    PRIMEIROS RESTOS DO BAGUALOSAURUS AGUDOENSIS COMO FOI ENCONTRADO NA ROCHA.
    ALGUNS DENTES DO ANIMAL PODEM SER VISTOS NO CENTRO DA IMAGEM.
    (FOTO: CRISTINA BERTONI-MACHADO)

    Outro aspecto marcante são os dentes do Bagualosaurus, que era herbívoro. Enquanto os dinos carnívoros apresentavam dentes recurvados e afiados, os sauropodomorfos tinham uma arcada dentária bastante robusta para resistir ao atrito com a matéria fibrosa da vegetação, com dentes em formato de folha.

    Há 233 ou 230 milhões de anos, idade estimada da rocha onde o dinossauro foi encontrado, a vegetação local “era dominada por samambaias primitivas, cavalinhas e cicadáceas, além de pinheiros primitivos (muito parecidos com araucárias e ginkgos)”.

    O crânio do Bagualosaurus também é bem típico dos sauropodomorfos, já que ele é menor se comparado ao restante do corpo. Isso se explica porque o pescoço longo dos sauropodomorfos não conseguiria sustentar uma cabeça muito grande e pesada na sua extremidade.

    Por essas características, o dinossauro gaúcho pode ajudar os cientistas a compreenderem melhor a evolução dos dinossauros gigantes herbívoros. Afinal, a história de toda a linhagem de sauropodomorfos remonta a esses dinossauros relativamente pequenos, que viveram há 230 milhões de anos.


    FOTO E RECONSTRUÇÃO (PARTES PRESERVADAS REPRESENTADAS EM COR MAIS CLARA) DO CRÂNIO E MANDÍBULA DE BAGUALOSAURUS AGUDOENSIS.
    (FOTO: LUIZ FLÁVIO LOPES – UFRGS. ILUSTRAÇÃO: FLÁVIO PRETTO.)

    “Há uns 15 milhões de anos após a época em que o Bagualosaurus viveu, já começaram a surgir dinossauros que passavam de cinco ou seis metros de comprimento”, diz Pretto. “A partir do período Jurássico, aparecem os saurópodes de 10 metros de comprimento e, até o período Cretáceo, existiam dinossauros com quase 50 metros de comprimento, os titanossauros, encontrados na Argentina e na região de São Paulo."

    Levando em consideração a dificuldade de se achar fósseis de dinossauros — que, quando são encontrados, na maioria das vezes estão incompletos —, esbarrar em um fóssil é sempre uma boa notícia. “Cada pequeno achado que a gente faz é uma peça que a gente vai somando nesse quebra-cabeça”, avalia o pesquisador.

    A descoberta do Bagualosaurus também ajuda a responder a uma pergunta que persegue os paleontólogos. O que veio primeiro: a herbivoria ou o pescoço longo? Ao que tudo indica, primeiro, os dinossauros se tornaram herbívoros eficientes e, só depois, conseguiram desenvolver um pescoço. Estudos anteriores já apontavam para essa resposta: para que você cresça e consiga se sustentar, primeiro, você precisa de uma fonte de energia abundante e de fácil aquisição. Foi o que aconteceu com os dinos.

    Fonte: Revista Galileu
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    Item Reviewed: Dinossauro brasileiro ajuda a entender evolução de gigantes herbívoros Rating: 5 Reviewed By: Bruno Angelim
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