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    5 razões que fizeram de 2018 um ótimo ano para o estudo de fósseis

    FÊMUR DE SAHELANTHROPUS TCHADENSIS QUE GEROU CONTROVÉRSIA ENTRE PESQUISADORES (FOTO: ALAIN BEAUVILAIN)
    Muita coisa aconteceu no mundo da paleontologia em 2018. Alguns dos eventos incluíram grandes achados fósseis, nova compreensão de ancestrais répteis e uma controvérsia cujo resultado poderia reescrever a história da humanidade. Julien Benoit, da Universidade de Witwatersrand, na África do Sul, listou cinco momentos importantes e mostrou o que significam para a ciência – e particularmente para o continente africano. Confira:

    1. Osso da coxa contestado
    Em janeiro, Roberto Macchiarelli, professor de paleontologia humana, acusou seu colega Michel Brunet de deturpar uma importante peça de evidência da história da evolução humana. A prova em questão é um fêmur – osso da coxa – encontrado no Chade em 2001.


    Macchiarelli acredita que o fêmur pertenceu a Toumaï (Sahelanthropus tchadensis), uma espécie de hominínio que seu oponente argumenta ser o mais antigo exemplo conhecido de ancestral humano, de 7 milhões de anos atrás. 


    CRÂNIO DE SAHELANTHROPUS TCHADENSIS - TOUMAI (FOTO: ORYCTES/WIKIMEDIA COMMONS)
    Contudo, Macchiarelli insiste que o fêmur pertence a um macaco quadrúpede e não a um hominídeo bípede – uma distinção importante. Antes da descoberta do osso, acreditava-se que a humanidade se originou na África Oriental. E Toumaï funda a árvore genealógica humana no na África Ocidental. E se o fóssil realmente não for de hominínio, a história evolucionária pode mudar completamente.

    2. Fora da África
    O Homo sapiens originou-se de um único ancestral que viveu na África há 300 mil anos. Entre 100 e 80 mil anos atrás, o Homo sapiens deixou o continente e começou a se espalhar pelo mundo. Estas origens africanas foram demonstradas inúmeras vezes por análises genéticas de fósseis.

    No entanto, o que é conhecido como o modelo da "Evolução multirregional" persistiu. Especialistas sugerem que os humanos modernos não têm uma origem única: em vez disso, a evolução foi independentemente e a partir de diferentes populações pré-humanas.

    Os asiáticos originaram-se do Homo erectus asiático, os europeus do Homem de Neanderthal e os africanos do Homo heidelbergensis africano. É uma teoria madura com nuances racistas e tem perdido apoio nas últimas décadas.

    CRÂNIO DE HOMO ERECTUS (FOTO: FLICKR/ JAMES ST. JOHN/CREATIVE COMMONS)
    Aqueles que sustentam este modelo indicaram que populações asiáticas modernas e o Homo erectus asiático tinham todos os dentes incisivos semelhantes – considerado um sinal de ancestralidade comum. Em abril de 2018, uma análise genética mostrou que esse traço dos incisivos era apenas um efeito colateral da adaptação a um ambiente frio, complicando a teoria.

    O gene que controla os dentes incisivos também diminui o número de glândulas sudoríparas (que produzem suor) e enriquece o leite materno com gordura. Estas duas características poderiam ter sido cruciais para a sobrevivência durante a Idade do Gelo.

    Por causa da conexão genética, o Homo erectus e os humanos modernos asiáticos teriam surgido incidentalmente com incisivos similares, evoluindo as adaptações contra o frio de maneira paralela. Isso significa que os dentes incisivos não foram herdados pelo Homo sapiens asiático de um ancestral do Homo erectus: eles foram adquiridos por causa do ambiente gelado. Isso é mais uma prova de que a árvore genealógica da humanidade está enraizada na África.

    3. Dinossauro muito grande
    Gigantescos dinossauros percorriam antigas paisagens africanas. O Paralititan, do Egito, pesava cerca de 60 toneladas. Giraffatitan, da Tanzânia, estava entre os mais altos que já existiram; e outro espécime da Tanzânia, Tornieria, entre os mais longos. O Espinossauro carnívoro, encontrado no Níger e no norte da África, era ainda maior do que seu icônico primo norte-americano, o Tyrannosaurus rex.


    REPRESENTAÇÃO ARTÍSTICA DE LEDUMAHADI MAFUBE (FOTO: NOBU TAMURA/WIKIMEDIA COMMONS)
    Mas quando e onde o gigantismo entre os dinossauros evoluiu? A espécie Ledumahadi mafube, da África do Sul, lança luz sobre a questão. O dinossauro de 200 milhões de anos pesava cerca de 12 toneladas, tornando-se o primeiro dinossauro a ultrapassar o limiar de 10 toneladas. Mais tarde, os dinossauros se tornariam ainda maiores. Mas quando viveu, Ledumahadi mafube era um gigante entre anões.

    4. Reimaginando répteis
    Mamíferos evoluíram a partir de uma fonte inesperada: répteis – especificamente do grupo de “répteis semelhantes a mamíferos”, chamados Cinodontes.

    Uma das maiores diferenças entre estes bichos atualmente é a biologia reprodutiva. A maioria dos répteis põem ovos e mostram pouco ou nenhum cuidado parental, enquanto a muitos mamíferos geram os filhotes no organismo e fornecem cuidados extensos.


    REPRESENTAÇÃO ARTÍSTICA DE CYNOGNATHUS - CINODONTIA (FOTO: NOBU TAMURA/WIKIMEDIA COMMONS)
    Este ano, cientistas nos Estados Unidos estudaram os fósseis de um cinodonte adulto datado de 190 milhões de anos, encontrado com esqueletos preservados de 38 bebês.

    Isso é uma quantia enorme, nunca encontrado em mamíferos, mas típico entre alguns répteis. Os pesquisadores argumentam que é improvável que a mãe adulta cinodonte possa ter produzido leite suficiente ou fornecido cuidados parentais para criar tantos filhotes. Isso sugere que os cinodontes devem ter tido uma biologia reprodutiva reptiliana e ajuda a entender esses importantes ancestrais.

    Isso também significa que o extenso registro fóssil da África do Sul, que até agora foi interpretado como a proposta de que os cinodontes cuidavam de seus filhotes, pode precisar de uma reinterpretação completa.

    5. Achado de quatro pernas
    Em junho, foi anunciado a existência de duas espécies de anfíbios novos, a partir de fósseis encontrados na África do Sul. Ambos representam a mais antiga evidência de animais terrestres de quatro patas, chamados tetrápodes, no continente africano.

    Historicamente, a busca por ancestrais tetrápodes negligenciou a África. Isso coloca o continente no mapa quando se trata de buscar provas de como ocorreu a transição da vida do ambiente marinho para a terra.


    TETRÁPODES DA ÁFRICA COM QUATRO PATAS (FOTO: MAGGIE NEWMAN)
    *Julien Benoit é pós-doutorado em Paleontologia de Vertebrados na Universidade de Witwatersrand, na África do Sul. Este artigo foi escrito originalmente em inglês e publicado no The Conversation.

    Fonte: Revista Galileu
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    Item Reviewed: 5 razões que fizeram de 2018 um ótimo ano para o estudo de fósseis Rating: 5 Reviewed By: Matteo Peixoto
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