• Em Destaque

    Escavações arqueológicas na Arcada revelam passado do castelo de Braga

    Escavações arqueológicas levadas a cabo durante o último ano em um edifício da Arcada de Braga sito no centro histórico da cidade, revelaram o primeiro achado físico de uma muralha medieval – “cerca manuelina” -, virada à Av. Central. Nas mesmas escavações foram ainda descobertos os alicerces, datados do séc. XIV, de um torreão pertencente ao antigo castelo de Braga, e duas sepulturas com mais de 1.500 anos, contendo duas pulseiras de pasta de vidro dos séc. V e VI. Todos esses achados vão ficar musealizados e em exposição ao público no próprio local onde foram encontrados, que albergará um espaço comercial de uma conhecida marca de roupa.

    O edíficio em questão, o N.º 1 da Praça da República, é conhecido da sociedade bracarense por ter albergado durante mais de meio século a conhecida Sapataria Arcádia, hoje alojada em um centro comercial na cidade, e também por ter sido sede de campanha de Ricardo Rio nas últimas eleições autárquicas, em 2017.

    Praça da República, em Braga © Arquivo UAUM / DR
    O Semanário V seguiu a pista de Manuel de Morais Pinho e de Ricardo Sant’anna, impulsionadores de um movimento que pretende recuperar a memória esquecida do antigo castelo de Braga e procurou a Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho (UAUM), na pessoa do professor e arqueólogo responsável, Luís Fontes, que esclarece sobre os achados e sobre a importância daquela unidade de arqueologia para referenciar “a história das várias cidades dentro da cidade de Braga”.

    Para conhecimento do leitor, a torre de menagem, que ainda existe por detrás da Arcada, era uma estrutura central, e o castelo era um quadrilátero com torreões do período tardomedieval nos ângulos, que foi demolido entre 1905 e 1906 depois de ter servido como estabelecimento prisional.

    Atenta aos indícios históricos e após diálogo com o proprietário do edifício e com o promotor da obra, a UAUM propôs a conservação dos vestígios e a sua integração no projeto de reabilitação do edifício n.º1, à semelhança do que já acontece em outros edifícios situados na atual Arcada.

    Escavação prévia arqueológica revelou alicerces medievais © Arquivo UAUM / DR
    Luís Fontes esclarece que “há uns restos do castelo que estão integrados nos edifícios da Arcada e aquele sítio era sensível do ponto de vista arqueológico”. Por estar onde está, o edifício tem ainda referências à antiga necrópole romana identificada aquando da construção do parque de estacionamento na Av. Central.

    Sobre os achados proporcionados pelas escavações prévias, o arqueólogo mostrou-se surpreendido relativamente à descoberta de vestígios da antiga muralha que remonta ao séc. XIV.

    “A surpresa maior foi encontrarmos vestígios dos torreões da cerca manuelina que se conhecia apenas de plantas e nunca tinha sido grande objeto de referência e valorização. O alicerce da torre medieval e da torre manuelina oferecem condições para serem conservadas e valorizadas, e o valorizar é serem parcialmente mostradas, ficarem à vista, e com isso o frequentador do estabelecimento vai poder observar parte das ruínas do castelo de Braga”, revela o diretor da UAUM.

    Escavação prévia arqueológica revelou alicerces medievais © Arquivo UAUM / DR
    Luís Fontes é perentório sobre a importância desta descoberta, que se traduz na redescoberta do castelo de Braga que era conhecido das descrições, de alguns restos que existem no Astória e em um novo restaurante italiano, ambos edifícios que compõe a Arcada. “Há esses restos mas estes vêm fazer uma especial referência à cerca manuelina que só se conhecia dos mapas, e que era um reforço com dois torreões circulares e uma cortina do lado nascente do castelo, virada à Av Central”, esclarece.

    Parede de novo restaurante italiano pertence ao antigo castelo © FAS / Semanário V
    Foi precisamente este achado, em conjunto com o torreão do próprio castelo, que determinou algumas alterações ao projeto inicial da obra. “Para além dos vestígios da cerca encontrámos também, como estavamos à espera, embora sem certeza que se conservava algo com possibilidade de ser valorizado, o alicerce e as duas primeiras fiadas do torreão nascente do antigo castelo de Braga, conforme aparece nas plantas antigas”, diz.

    Durante os trabalhos de escavação prévia, segundo o arqueólogo, encontraram-se ainda vestígios relacionados com a extensão da necrópole romana da Av. Central: “duas sepulturas romanas tardias dos séc V e VI, que foram escavadas, uma em cova aberta na terra e outra estruturada com tijolos”.

    “É engraçado porque a que tinha maior qualidade construtiva estava vazia de espólio enquanto a outra, que era uma cova simples aberta, proporcionou o achado de duas pulseiras de pasta de vidro dos séc. V e VI”, revela o arqueólogo. O achado acaba por ser importante por raramente se encontrar espólio em enterramentos tardios, fruto da implementação da tradição cristã de enterramento que se carateriza pela ausência de espólio nas sepulturas. “E por isso é um achado importante”, garante Luís Fontes.

    “Visitar aquela loja será um passeio pela história construtiva da cidade relacionado com transformações subsequentes do castelo de Braga”

    A propósito destes achados, Luís Fontes refere que a cidade de Braga continua a revelar toda a sua riqueza, comprovando a necessidade de existência de estruturas de investigação arqueológica. “Neste caso o proprietário do imóvel revelou uma especial sensibilidade pelo património, solicitanto à Unidade de Arqueologia que fizesse a intervenção arqueológica e disponibilizando-se desde logo para conservar, valorizar e integrar qualquer achado. O promotor da obra revelou idêntica sensibilidade e desde início houve grande diálogo para articular os interesses vários”.

    Segundo o arqueólogo, o achado serve para ser mais um ponto de visita patrimonial na cidade e isso é “a boa prática” que a UAUM procura fixar. “Houve essa posibilidade e desse ponto de vista é exemplar a intervenção. Os alçados da parede ficam à vista e não vão ser rebocados como estava inicialmente previsto. Vão ficar visíveis frestas, vãos das portas da antiga Arcada e uma série de vestígios do antigo castelo”.

    A Torre de Menagem e alguns vestígios da antinga muralha do castelo de Braga foram classificados como Monumento Nacional por Decreto publicado em 24 de Junho de 1910, cinco anos depois da sua demolição.

    Luís Pinhão é um dos coproprietários e achou por bem “mostrar o que é de todos”

    Um dos coproprietários do edifício onde foram achados os alicerces medievais, Luís Pinhão, foi contactado para alugar o espaço a uma conhecida marca de roupa, mas antes tomou medidas no sentido de “chamar ao terreno” a UAUM para realizar trabalhos que resultam da condicionante do centro histórico de Braga ser potencialmente um repositório das várias “cidades inseridas na cidade de Braga”, desde a época da sua fundação até à atualidade.

    Ao Semanário V, Luís Pinhão explica que o promotor do novo espaço pretendia a construção de uma cave, que estava delineada inicialmente no projeto, e tal intenção obrigou a escavações arqueológicas que determinaram a não construção da cave fruto da descoberta das ruínas do antigo castelo de Braga.

    Pinhão, que é professor de Matemática e Ciência, revela uma “grande afinidade” com História e Arqueologia, com visitas periódicas ao longo da vida a locais arqueológicos no Egitpo, Jordânia, Grécia, Turquia, entre outros. O promotor achou por bem “acarinhar” todos os achados, classificando-os como “um património de todos e para todos que permite maior conhecimento daquilo que foi a nossa cidade”, independentemente do “investimento acrescido” que teve de suportar. “Achámos que seria uma mais-valia para o espaço comercial que lá se irá instalar em breve”, explica.

    Universidade do Minho ajuda Braga a revelar toda a sua riqueza histórica há mais de 40 anos

    A UAUM existe há 42 anos. Fundada em 1977, assumiu desde então e por disposição legal, a responsabilidade científica do estudo arqueológico da cidade de Braga, então designado “Salvamento de Bracara Augusta”. Prossegue atualmente com o projeto “Estudo arqueológico-histórico da cidade de Braga, redescobrindo as várias cidades que ao longo dos séculos foram formando a atual cidade de Braga.

    Há 40 anos o único sítio romano mencionado era a Fonte do Ídolo, na Rua do Raio, em São Lázaro, mas hoje, com a colaboração daquela unidade universitária, Braga tem outros monumentos recuperados como as termas do alto da Cividade, a domus romana da Escola Velha da Sé, as ruínas arqueológicas de Dume, o balneário castrejo da estação de caminhos-de-ferro, o núcleo das Frigideiras do Cantinho e do Burgus Hotel, e toda uma série de sítios em Braga que têm a ver com a evolução dos 2.000 anos da cidade. A unidade foi criada pela UMinho para valorizar a história da cidade de Braga e é exclusivamente paga pela universidade. “É um investimento da universidade para a história da cidade de Braga, e não só, pois articula-se com projetos em todo o país e em outros países”, acrescenta Luís Fontes.

    “É uma instituição de referência na cidade, reconhecida pela idoneidade e eficiência na atuação e os resultados são o acrescento de património da cidade e o reconhecimento internacional da história da cidade de Braga e isso deixa-nos muito orgulhosos”, refere o professor, salientando ainda que todo esse prestígio não elimina a ausência de dificuldades.

    O diretor refere que a “luta com as dificuldades normais das instituições públicas” também está presente na UAUM, como o caso da falta de quadros. “Temos um corpo técnico permanente de um arqueólogo ativo, dois técnicos de informática, um administrativo e um auxiliar técnico. Somos cinco permanentes e depois temos onze bolseiros de investigação contratados com verbas dos projetos da unidade de arqueologia. Acolhemos ainda alunos de mestrado e asseguramos a realização dos estágios práticos, que é uma unidade curricular da licenciatura em Arqueologia da UMinho”, diz.

    Com a UAUM, estes futuros arqueólogos adquirem experiência prática do trabalho de arqueologia, podendo ainda consultar a biblioteca e arquivo da UAUM para realizarem os seus trabalhos.

    Fonte: Semanário V
    • Comente
    • Comente com Facebook

    0 comentários:

    Postar um comentário

    Item Reviewed: Escavações arqueológicas na Arcada revelam passado do castelo de Braga Rating: 5 Reviewed By: Unknown
    Topo